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quinta, 05 de novembro de 2020 às 10:11

Mortes e casos de covid-19 explodem em município onde secretário de Saúde foi condenado pela Justiça

Sem controle e decreto municipal para diminuir movimento, São Raimundo Nonato enfrenta pré-colapso na rede hospitalar com óbitos em crescimento

UPA do município de São Raimundo Nonato foi transformada em unidade exclusiva para casos de Covid-19.  100% dos 15 leitos de UTI-Covid disponíveis estão ocupados.

UPA do município de São Raimundo Nonato foi transformada em unidade exclusiva para casos de Covid-19. 100% dos 15 leitos de UTI-Covid disponíveis estão ocupados.

Por duas noites seguidas nesta semana (terça e quarta), o Jornal Nacional destacou o Piauí como um dos poucos estados brasileiros onde os casos e mortes relacionadas a Covid-19 estão em alta. O importante município de São Raimundo Nonato (525 km de Teresina), polo de uma microrregião com mais de uma dezena de cidades, vive uma espécie de infarto na rede hospitalar, está literalmente respirando por aparelhos na UTI. Para agravar o quadro instável, com tendência de colapso, o secretário municipal de saúde, Jussival Júnior, acaba de ser condenado pela Justiça Eleitoral pela prática de publicidade institucional, favorável à campanha pela reeleição de Carmelita de Castro Silva, do Progressistas, em período vedado.

"No tocante a pena a ser aplicada, concluo que a conduta do Representado é grave, uma vez que, através da divulgação de atos institucionais, tende a promover participante direto do processo eleitoral em curso, desequilibrando, destarte, e ferindo a isonomia que deve predominar no processo de escolha popular. Por esta razão, reputo como proporcional ao ilícito, bem como necessário e suficiente para reprovação e prevenção, o valor da sanção a ser fixado em 10.000 (dez mil) UFIR", determinou o juiz Carlos Alberto Bezerra Chagas, da 13* Zona Eleitoral do Piauí.

Jornal Nacional destaca o Piauí com aumento no número de mortes.

Baseado no valor no Rio de Janeiro (cotação mais recente disponível na internet), o secretário de Saúde terá que pagar 10 mil UFIR - Unidade Fiscal de Referência, que lá custa cerca de R$ 3,5 reais. Multiplicando R$ 3,5 por 10 mil, chegamos ao suposto valor de aproximadamente R$ 35 mil. A dúvida agora é saber se esse valor será reembolsado à Justiça dos cofres da Prefeitura de São Raimundo Nonato ou sairá do bolso pessoal do secretário, caso muito difícil de se comprovar se o próprio gestor não apresentar os comprovantes. A dúvida fica no ar tendo em vista a postura do secretário nos últimos meses, em especial durante a pandemia da Covid-19.

Suas declarações públicas costumam ser contestadas pela população – nas ruas, rádios e redes sociais (facebook, instagram e twitter), mas principalmente em grupos de what'sApp. Em meados de abril ele foi acusado de mentir para a população ao declarar numa entrevista, ao vivo, para TV Cidade Verde, que a população poderia ficar tranquila que a cidade de São Raimundo Nonato já tinha disponível 5 leitos de UTI, sem especificar que seriam leitos de semi UTI, especificas para Covid, o que é completamente diferente.

O caso teve forte repercussão, virou escândalo ao ponto de levar o Governo do Piauí a ampliar a estrutura hospitalar na cidade que atualmente conta com 15 leitos de UTI-Covid, mas nenhum leito de UTI convencional, equipado com médico intensivista, por exemplo (veja no final desta reportagem os critérios de definição de uma UTI). Com população superior aos 100 mil habitantes, é quase dramático constatar que nenhum hospital desse pedaço do Piauí dispõe de hemodiálise. Em tempos de eleições, novamente a SESAPI (Secretaria Estadual de Saúde do Piauí), se antecipou a repercussão e anunciou nos últimos dias a instalação de um centro de hemodiálise no Hospital Regional Senador Cândido Ferraz.

Gestão temerária

Condenado agora pela Justiça Eleitoral, o jovem secretário Jussival Júnior pode mudar a sua postura, classificada por muitos como irresponsável, submissa e atrelada escandalosamente aos interesses pessoais pela reeleição da atual prefeita Carmelita Castro. Diariamente ele vinha usando as suas contas pessoais em redes sociais para, escancarada e ilegalmente, fazer propaganda eleitoral, uma prática vedada pela legislação. Logo ele, na crista da onda por gerenciar os volumosos recursos para enfrentamento da Covid-19, alvo de operações diárias da Polícia Federal país afora.

Na verdade, os seus problemas começaram em meados de março, inicio da pandemia quando ele decidiu não instalar barreiras epidemiológicas nos acessos ao município. Logo São Raimundo se tornou assunto nacional com a chegada diária de veículos clandestinos trazendo passageiros dos grandes centros urbanos, São Paulo e Brasília, em especial, que naquele momento viviam o auge da pandemia. Novamente o leite já estava derramado. Quando a Secretaria Municipal de Saúde decidiu agir era tarde demais, dezenas de ônibus já tinham chegado na microrregião.

Mesmo com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, que visitou a cidade recentemente, e do senador Ciro Nogueira, Carmelita Castro (PP) não conseguiu amenizar o drama da Covid no município.

Outra mancha de partidarismo exacerbado, imaturidade, má influência e insensibilidade de Jussival Júnior veio à tona num rumoroso caso que também teve forte repercussão na mídia estadual pois envolvia uma cadelinha abandonada que foi resgatada da rua pela ativista Eliane Oliveira e batizada de Carmelita Castro, numa alusão ao local do resgate – nas proximidades da casa da prefeita. O caso viralizou nas redes sociais, ganhou as emissoras de televisão da capital Teresina em tom de chacota contra Carmelita e se tornou um estorvo na carreira do secretário.

Certamente com tempo de sobra em meio a uma pandemia e completamente sem espirito solidário e humano, ao contrário do que se espera de um gestor na área da saúde, Jussival Júnior passou a ser protagonista de uma série de agressões e violência contra Eliane Oliveira. O caso teve consequências tão sérias que o Instagram foi induzido a erro por um movimento supostamente coordenado pelo secretário que culminou com a suspensão da página da plataforma digital, fazendo a instituição coordenada por Oliveira perder quase uma década de registros (posts e fotos) da sua história em defesa dos animais na cidade de São Raimundo Nonato.    

A lista de escândalos envolvendo a gestão da Saúde em São Raimundo Nonato é grande, mas para não perder a linha de pensamento, segue os principais. A resistência em pagar uma ajuda de custo extra aos funcionários da linha de frente no combate ao Covid-19, e a distribuição de máscaras tão propalada, se constituíram em fracassos. A pressão e a Lei obrigou Carmelita Castro a pagar o funcionalismo e o "programa" de distribuição de máscaras ficou restrito aos funcionários e, mesmo assim, houve denúncias de irregularidades com distribuição de material inadequado e de péssima qualidade para os próprios funcionários da saúde. Na sequência de problemas os testes de Covid-19 demoraram demasiadamente para serem adquiridos e aplicados na população, o que contribuiu, e muito, para a subnotificação dos casos no início da contaminação.

Para um paciente (no caso, a saúde do município), que já vinha tendo febre alta, quando a prefeita Carmelita Castro, quase refém de uma parcela dos comerciantes que ameaçavam fazer um protesto na frente da sua casa, decidiu fazer vista grossa para o aumento no fluxo de pessoas no centro comercial, se abdicando de assinar um novo decreto para restrição do comércio, o secretário Jussival Júnior, totalmente subserviente e, numa postura, acima de tudo, irresponsável, ficou calado, mostrou com omissão que a saúde da população não era a prioridade, a campanha eleitoral é que estava no foco. Foi as rádios para defender a ação da gestora do Progressistas que desde então se fez de cega, numa postura, no mínimo, irresponsável, mesmo com mortes e casos em crescimento.

Uma das cobranças da população é que, desde então, o município de São Raimundo Nonato recebeu cerca de R$ 6 milhões específicos para aplicação na saúde, em especial no combate a Covid-19, mas até agora Jussival Júnior não conseguiu demonstrar publicamente o uso de um só centavo desses recursos. Tudo permanece na penumbra enquanto os casos não param de crescer e as mortes, que antes não passavam de estatísticas, agora ganham nomes, sobrenomes e cada dia chega mais e mais próximo da população.

Foguetório do terror

Como se ainda fosse possível administrar calmantes aos pacientes e seus familiares, dezenas delas envolvidas pela dor das mortes, dos tratamentos, da comprovação da doença ou outras enfermidades, o secretário de Saúde de São Raimundo Nonato, Jussival Júnior, foi flagrado ontem nas redes sociais compartilhando vídeos de correligionários comemorando uma suposta pesquisa favorável a reeleição de Carmelita Castro. A repercussão foi imediata. Pipocaram como bolhas vermelhas de catapora respostas, indagações e, sobretudo, mensagens de indignação com a sua postura.

Centro comercial da cidade sertaneja funciona sem nenhuma restrição. Casos aumentam e mortes ganham nomes.

Algumas semanas atrás a sua principal assessora, Larissa Reis, já tinha sido envolvida em outro escândalo envolvendo a soltura de girandolas em horário inadequado e próximo de casas de idosos e pessoas com problemas de saúde. Agora, mesmo com a cidade chorado os seus mortos, três apenas nos últimos dias, totalizando 16 desde o início da pandemia, com quase 2 mil contaminados, Jussival Júnior compartilhou uma publicação com soltura de fogos de artificio na cidade em comemoração a uma suposta vantagem na corrida sucessória.

Na cidade, principalmente nas classes mais baixas e pela oposição, o secretário de Saúde já está sendo chamado de "carteiro do terror”. Sua função é esperar os óbitos e tentar confortar os familiares com supostas segundas intenções, como oferecer um caixão. Se a própria Justiça Eleitoral acaba de condenar um gestor que teoricamente deveria cuidar da saúde da sua população, mas vive sob uma espécie de transe fora da realidade, a tendência é o quadro se agravar. Os opiáceos produzem ações de insensibilidade à dor, são usados principalmente para crises de alta intensidade, mas também podem deixar o seu usuário drogado, sem noção da realidade.


ENTENDENDO UMA UTI

UTI (Unidade de Terapia Intensiva – nível III). Atua com complexidade alta e nível de atenção III (muito alto). Para pacientes críticos, com instabilidade fisiológica, risco de morte elevado. Requerem monitorização e/ou intervenções invasivas altamente complexas. É necessário ter médico intensivista responsável técnico; médico intensivista de rotina/diarista matutino e vespertino; e médico plantonista. As intervenções são as disponíveis apenas em ambiente de UTI (ex.: monitorização hemodinâmica avançada, monitorização da pressão intracraniana, ventilação mecânica invasiva, uso de drogas vasoativas, oxigenação por membrana extracorpórea, balão intra-aórtico, terapia de substituição renal contínua).

UTI (nível II). Para complexidade alta e nível de atenção II (alto): Para pacientes críticos, instabilidade fisiológica, risco de morte que requerem monitorização e/ou intervenções invasivas complexas. É necessário ter médico intensivista responsável técnico; médico intensivista de rotina/diarista matutino e vespertino e médico plantonista. As intervenções são as disponíveis apenas em ambiente de UTI (ex.: monitorização cardíaca contínua, ventilação não invasiva, ventilação mecânica invasiva, uso de drogas vasoativas).

UCI ou UTI-COVID (nível I). Para complexidade baixa e nível de atenção I (médio-baixo): Para pacientes que requerem assistência da enfermagem ou da fisioterapia ou monitorização contínua. É preciso ter médico responsável técnico; médico de rotina/diarista e médico plantonista. As intervenções são ventilação mecânica não invasiva intermitente, infusões venosas como insulina, vasodilatadores ou antiarrítmicos.

Fonte: André Pessoa

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